Num desses assaltos o cara resolveu apontar a arma pro homem e pediu gritando pra passar a felicidade pra ele, rapidinho, rápido se não eu derrubo.
O homem sentou no meio fio e contou uma história bonita de quando nasceu sua filha.
O assaltante levantou e foi embora com a felicidade.
***
Nessa época era possível se privatizar a felicidade, os momentos bonitos e o prazer de viver. Tinha quem tivesse tanta felicidade que começou a subir pro céu nos bairros mais felizes de Porto Alegre, uma casca se fez no céu de um rosa cada vez mais rosa. Sempre se sorria, ninguém precisava assistir televisão e só chovia quando o prefeito mandava. E a chuva era de lágrima não chorada, soro para doenças.
Nos bairros infelizes não tinha nada no céu e chovia quando o tempo resolvia chover. As pessoas preferiam tentar trabalhar nos lugares felizes de Porto Alegre, mas se era pouco aceito porque todos temiam que a felicidade fosse roubada pelos infelizes. Em poucos lugares do mundo era possível ver tanta gente feliz e infeliz ao mesmo tempo. Grandes empresas se instalavam nos bairros infelizes e pagavam seus empregados com pequenas histórias felizes. Mas o céu dos infelizes continuava azul e à noite ainda podiam ver as estrelas. As autoridades estavam trabalhando para evitar que os infelizes olhassem para cima.
é mais legal ser espontânea!
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Dormir de meias
Ela falava num francês muito rápido e baixinho, eu não entendia nada. Sacudi a cabeça muitas vezes concordando com as coisas que não sabia se diziam alguma coisa. Às vezes ela sorria e gargalhava alto e em alguns momentos pensei ter entendido que debochava da minha cara, mas eu não tinha certeza. Repeti algumas vezes as poucas frases que sabia em francês e ria com ela enquanto ela apontava para os casais que dividiam o mesmo copo. Por mímica, eu ia oferecendo coisas pra ela, cerveja, vodka, absinto, batatas fritas. Ela aceitava tudo. Quanto mais bêbada, mais falava o francês veloz. Pedi em um português claro e pausado se podia beijá-la e ela parou de falar como se tivesse entendido. Enrugou a testa, cambaleou pra trás, deu uma gargalhada, falou alguma coisa que também não entendi e emendou mais uma frase longa e sem sentido com a boca vermelha. Disse mais palavras, saiu, adivinhei que foi no banheiro. Quando voltou me beijou, disse outra frase e puxou minha mão. Subi com ela até o lugar onde estava hospedada, ela tirou a roupa toda e transamos durante uma hora. Ela não falava tão rápido enquanto fazia sexo, entendi algumas coisas. A francesa sentou na cama, me olhou rindo, vestiu meias nos pés brancos e deitou ao meu lado para dormir. Assim que ela adormeceu me vesti silenciosamente e fui embora rápido. Não posso, não suporto, tenho nojo de mulheres que dormem de meias. Eu podia passar o resto da vida sem entender o que ela dizia, mas de meias não vai dar, dona moça francesa.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Te costuro com os fios dos meus cabelos
Mandaram ele pra eu dar um jeito. Não havia mais solução, fizeram de tudo no hospital, não puderam conter os sangramentos, ele se foi. Mandaram ele pra eu devolver a ele toda a vitalidade de homem que me foi transferida. Trouxeram ele numa maca e colocaram no meio do meu quarto, os lençóis cheios de sangue e pus, o abdômen aberto fedia. Puxei todos os lençóis e coloquei na máquina de lavar. Chamei minha cadela pra tirar dele o excesso de sangue, fazer como ela fazia com os filhotes enquanto ainda era viva. Puxei ele com toda a minha força pra baixo do chuveiro, lavei tudo com muito sabão, coloquei xampu no cabelo, coloquei o chuveirinho dentro do abdomem que se empalidecia. Lavei com bastante sabão as partes íntimas que se comprimiam a cada minuto. Lavei as axilas que eu amava tanto. Lavei o rosto com água e pedi que fosse a mais pura. Levei ele nu pra minha cama, sequei os cabelos com secador, os pés com minha toalha bordada e todo o resto do corpo com a minha língua. Peguei a tesoura da cozinha e cortei meus cabelos, joguei do lado dele na cama e fui amarrando os fios até fazer um fio maior e enfiei numa agulha. Olhei pro corpo morto, pro pus que começava a expelir mais uma vez. Abri a boca dele e senti a ausência da saliva que me lambia toda, abri os olhos e vi duros os olhos que me olhavam úmidos de confiança, segurei forte o pênis que jorrara em mim toda a força de paixão e gozo. Escorria por mim todas as secreções dele ainda. E foi por isso que me devolveram ele. Peguei a agulha e comecei a costurar o intestino, o rim, o estômago. Costurei a pele em todos os lugares em que tinha sido rasgada. Costurei o crânio onde estava afundado. Costurei os dentes na gengiva. Costurei o dedo minguinho do pé esquerdo. Costurei de volta a canela ao joelho. Costurei o coração à aorta. Costurei um pulmão ao outro. Costurei o pulso aberto. Fechei o abdomem. Costurei ele todo com meus cabelos porque era a única força que eu tinha, minha forma de devolver a ele toda a força a mim concedida. Costurado, deitei nua ao lado dele e dormimos juntos. Ele morto e eu careca.
terça-feira, 26 de abril de 2011
histórias de amor de hoje
Nem todas as minhas histórias de amor são pro mesmo cara. Não me envergonho: Minhas palavras são capazes de amar imensamente, ininterruptamente, incondicionalmente. Eu ainda não.
É o primeiro encontro, o primeiro beijo, a primeira vez que nos damos as mãos, a primeira vez que nos vemos pelados, a preocupação com a trilha sonora adequada, o primeiro acordar juntos, a primeira festa, a primeira briga, a primeira... eira eira sem eira nem beira nós todos terminamos. Acabamos pra nunca mais voltar. E eu cansada no fim do filme: Tão chato e tão bom.
E hoje
Hoje eu te escrevi uma história de amor também porque pude de novo sentir vontade, porque as palavras foram maiores que meus pensamentos, porque não conseguia dormir pensando nisso, porque eu recebia histórias de amor de volta e me peguei pensando: Olha, vale à pena só porque ele presta atenção em mim. Só porque me deu um beijo no meio da rua, porque cuidou a trilha sonora, porque sorri com a covinha no lugar certo, me abraça do jeito certo, parece um retardado rindo de mim, o cheiro dele é tão bom que eu quero o nome do perfume, sorri com os olhos fechados, come bala depois que fuma, não tem vontade de ser um esquimó perto de mim pra poder me dar mais que beijo de esquimó e me promete todo o tempo me encher de beijos com um sotaque esquisito do interior.
É por isso que ele merece.
Minhas outras histórias lindas também mereciam, e talvez daqui a bem pouquinho eu já tenha vontade de escrever uma nova história de amor. Talvez.
Mas hoje,
hoje ele merece uma história de amor toda pra ele.
É o primeiro encontro, o primeiro beijo, a primeira vez que nos damos as mãos, a primeira vez que nos vemos pelados, a preocupação com a trilha sonora adequada, o primeiro acordar juntos, a primeira festa, a primeira briga, a primeira... eira eira sem eira nem beira nós todos terminamos. Acabamos pra nunca mais voltar. E eu cansada no fim do filme: Tão chato e tão bom.
E hoje
Hoje eu te escrevi uma história de amor também porque pude de novo sentir vontade, porque as palavras foram maiores que meus pensamentos, porque não conseguia dormir pensando nisso, porque eu recebia histórias de amor de volta e me peguei pensando: Olha, vale à pena só porque ele presta atenção em mim. Só porque me deu um beijo no meio da rua, porque cuidou a trilha sonora, porque sorri com a covinha no lugar certo, me abraça do jeito certo, parece um retardado rindo de mim, o cheiro dele é tão bom que eu quero o nome do perfume, sorri com os olhos fechados, come bala depois que fuma, não tem vontade de ser um esquimó perto de mim pra poder me dar mais que beijo de esquimó e me promete todo o tempo me encher de beijos com um sotaque esquisito do interior.
É por isso que ele merece.
Minhas outras histórias lindas também mereciam, e talvez daqui a bem pouquinho eu já tenha vontade de escrever uma nova história de amor. Talvez.
Mas hoje,
hoje ele merece uma história de amor toda pra ele.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Uma declaração de amor
Palavras, vim me declarar. Um dia desses sem que eu percebesse acabei tendo um desejo sexual por vocês e foi ficando cada vez mais incontrolável, eu já não sei mais como esconder. Penso em vocês o tempo todo, penso em pegar vocês assim, escolher uma tipografia toda especial, fazer com que vocês digam por mim o que eu quero dizer. Eu já não controlo mais meu desejo de desenhar letras, de colar vocês nas ruas, de dar pra cada uma todo o amor que merecem. Quero que todas as palavras se sintam amadas, quero que todas possam participar, quero que todas estejam comigo, quero controlar todas, quero pegar todas assim na minha mão e grudar no papel do jeito que eu quiser. Meu desejo é poligâmico, eu quero todas e todas de uma vez. Todas de uma vez por todas. Quero cruzar vocês, quero que se reproduzam, que digam mais, que falem mais do que por vocês, que me deixem sozinha pra eu sentir saudade e precisar mais de vocês. Palavras, eu quero agarrar vocês e fazer o que eu quiser, comer vocês do jeito que eu quiser. Quero gritos, quero personalidade, quero que vocês me dominem e acabem comigo. Eu quero palavras prostitutas, palavras que se vendem sem dó nem piedade e me deixam fazer o que eu quiser com elas friamente pra depois ir embora se deixando usar por outros tarados. Eu sofro de amor louco por vocês, essa paixão me rasga por dentro e eu quero colocar vocês pro mundo todo ver que eu sou dona de vocês, eu uso vocês, eu organizo vocês lindas e bem arrumadas como eu quiser porque eu domino vocês. E eu quero sim me exibir sem nenhum tipo de culpa porque eu faço isso por amor.
segunda-feira, 21 de março de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
nossos todos
Existem algumas reclamações a fazer. Sim, porque nem sempre podemos ser aquilo que gostaríamos, nem sempre queremos ser o que os outros querem que sejamos. E minha reclamação maior e talvez a dor que tem me perseguido é: Não fui a preferida. E fui, no entanto, toda toda, aquela que eu queria ser, toda toda, aquela que eu sempre quis me sentir e toda toda fui me entregando e aos pouquinhos te conhecendo e sentindo algumas raivas, é verdade, mas até nisso fui toda toda boa e aceitadora tua. E ainda assim não fui a preferida, não fui a mais querida, não fui a mais bonita, não fui a mais profunda, nem a mais sincera, nem a que querias. Querias, mas não a mais que. E indo assim, toda toda me envolvendo viraste todo todo o que eu queria, sim, todo todo o meu preferido. E então, todo silêncio – só um todo porque não é sempre – é óbvio que minha todisse toda não seria suficiente pra nós dois e em silêncio todo todo meu coraçãozinho se fecha e se cala porque precisa de curativos e ficar todo todo em repouso um pouquinho. Acabaram as reclamações. De resto, eras perfeito.
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